Fonte: Reuters News - 29/05/2009
As fusões e aquisições, trazidas de volta com a recuperação recente dos mercados, devem se acelerar nos próximos meses no Brasil, pela combinação do oportunismo de investidores com o instinto de sobrevivência dos empresários.
Segundo especialistas, uma volta ao ritmo alucinante do final de 2007 e início de 2008 ainda parece distante, mas a convergência de interesses está fechando o abismo entre as pontas de compra e de venda que se arrastava há meses, primeiro por causa do sobreaquecimento do mercado e depois pela crise econômica que levou os preços dos ativos à lona. "Houve uma clara acomodação de expectativas sobre as condições de 'valuation'", diz o advogado Carlos Mello, sócio do escritório Machado, Meyer, Sendaz e Opice, que já participou de cinco operações recentes de grande porte, incluindo a compra da Sadia pela Perdigão e a venda de 42,5% da Líder Aviação para o grupo americano Bristow, ambas neste mês.
O caso Sadia-Perdigão, aliás, é visto por especialistas como exemplo das motivações que estão apressando o fechamento dos negócios. Pelo lado do vendedor, da Sadia, mandou a urgência de se capitalizar para cobrir o rombo de R$ 2,5 bilhões causado por perdas com derivativos. E é a fragilidade financeira que vai levar a fusões nos próximos meses principalmente empresas dos setores de agronegócio, imobiliário e de varejo. "Quem tem dívida para vencer está vendo que o mercado de capitais não vai estar lá para refinanciar. Tem que fazer alguma coisa para não correr o risco de desaparecer", afirma o advogado Andrew Jánszky, do escritório Shearman & Sterling.
Já na ótica do investidor, pelo menos dos capitalizados, a despeito do cenário mais nebuloso da economia global, vale a pena correr riscos calculados. "Esses querem acelerar os negócios antes que a crise acabe e eles percam a oportunidade", diz Carlos Parizotto, sócio da Cypress Associates, que presta consultoria na área de fusões e aquisições.
Em tempos áridos como o atual, a combinação de fartura de recursos e visão de longo prazo não é muito comum. Talvez por isso a maior parte das operações recentes tenha tido na ponta de compra os fundos de private equity e empresas sólidas em busca de consolidação em setores nos quais o Brasil possui vantagens competitivas. Neste último grupo, somam-se à Perdigão-Sadia transações como a da VCP, que está comprando o controle da Aracruz, e a aquisição de metade do Banco Votorantim pelo Banco do Brasil.
Pelo lado dos fundos de participações, destacam-se o Advent International, que arrematou 30% da Cetip, maior central de títulos privados de renda fixa na América Latina, e a BTG, do banqueiro André Esteves, que adquiriu metade da empresa de estacionamento de veículos Estapar. Os dois negócios foram fechados em maio. Fontes de mercado afirmam que outros grandes grupos de private equity, como o Pátria Investimentos e o americano Carlyle, estão em negociações avançadas e devem anunciar transações nos próximos meses.
O movimento vem animando bancos de investimentos, empresas de auditoria, consultores e escritórios de advocacia, que ampliaram suas equipes para dar conta da escalada do mercado de capitais doméstico nos últimos anos e, nos últimos meses, vêm enfrentando uma pasmaceira. "Agora estamos com um 'pipeline' bem bacana", diz o presidente do UBS Pactual, Rodrigo Xavier.
Menos e maiores
Menos operações, mas de valores maiores. Essa é a tendência para o resto do ano, segundo especialistas, já que em setores mais fragmentados da economia as oportunidades de ganhos não são tão visíveis aos investidores. "Poderemos continuar vendo operações de grande porte, mas o número de operações, que já caiu em 2008, vai recuar ainda mais este ano", avalia o presidente da PricewaterhouseCoopers no Brasil, Fernando Alves.
O mais recente levantamento da Price aponta que houve 164 anúncios de fusões e aquisições envolvendo empresas brasileiras nos primeiros quatro meses de 2009, o que representa uma queda de 25% em relação ao mesmo período do ano passado.