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Palavra do gestor: As barreiras para os 'private equity' no Brasil

Fonte: Valor Online - 02/06/2009

O Brasil entrou definitivamente na rota dos maiores fundos de "private equity" do mundo. Ao lado de China e Índia, o país é apontado com o destino preferido dos investidores, de acordo com pesquisa divulgada em abril pela Associação de Private Equity de Mercados Emergentes e da Coller Capital, sediada em Londres.

Não é de hoje que grupos como Carlyle, Actis e Cartesian sinalizam que estão buscando ativos no mercado brasileiro. Tendo surgido na década de 80 nos Estados Unidos, os fundos de "private equity" se tornaram, ao longo do tempo, uma opção de financiamento bastante utilizada por pequenas e médias empresas, e mais recentemente, e com uma frequência cada vez maior, por grandes empresas.

Nos últimos três anos, graças à abundância de recursos para investimentos, à estabilidade da economia local e à reforma do mercado de capitais - que permitiu a venda de empresas na bolsa -, investidores de fundos de "private equity" compraram participação em 300 empresas de mais de 30 setores no país, de acordo com cálculos do Centro de Estudos em Private Equity e Venture Capital da Fundação Getúlio Vargas.

Segundo levantamento da PricewaterhouseCoopers, no primeiro trimestre deste ano, já foram concluídas 114 fusões e aquisições no mercado brasileiro. Apenas no mês passado, os fundos de "private equity" estiveram envolvidos em 34% dos negócios fechados, um recorde. No primeiro trimestre deste ano, os fundos estiveram presentes em 27% das transações divulgadas, ante 20% no mesmo período de 2008.

O grande obstáculo para a disseminação de investimentos dos fundos de "private equity" no Brasil são as características de gestão das empresas pequenas e médias no país. Apesar do contingente de empresas disponíveis, os investidores vêm demonstrando uma sensação de escassez de ativos de qualidade para investimento. Isso se dá porque o investidor, especialmente o estrangeiro, tem maior dificuldade para avaliar operações brasileiras em função de particularidades deste mercado. Normalmente, os fundos encontram companhias com excelente potencial, mas as descartam em função do baixo preparo para o convívio com um sócio estruturado.

Práticas não convencionais de tributação, más práticas de contabilidade e centralização na gestão são pontos normalmente apontados como "deal breakers", ou barreiras que inviabilizam uma transação. Há, no entanto, espaço para aproximação das partes. Tantos os fundos devem conseguir enxergar além da superfície, quanto as empresas deveriam forçar-se a adotar práticas mais ortodoxas de gestão. Muitas companhias sérias acabam por adotar práticas não apropriadas por absoluto desconhecimento dos malefícios que elas podem causar no futuro. Inúmeros casos de aquisição são inviabilizados pelo desconhecimento e/ou comodismo do empresário.

Entre as medidas que podem ser tomadas pelas empresas, é fundamental a implantação de sistemas de controle gerencial realistas, que reflitam de fato a realidade das operações. Também é positiva a adoção de práticas contábeis e fiscais que sejam concomitantemente conservadoras e otimizadas. É importante aproveitar este momento de entressafra do mercado de capitais para colocar a casa em ordem. Até porque, de acordo com a Associação Brasileira de Private Equity & Venture Capital (ABVCAP), haveria US$ 11 bilhões para se investir no Brasil nos próximos anos.

Para os investidores pessoas físicas, a crescente participação dos fundos no capital e gestão das empresas pode ser um fator importante. Primeiramente, a experiência de convivência com fundos de "private equity" é bastante positiva para a profissisonalização e crescimento das empresas. Em outras palavras, a presença (passada ou atual) de um fundo de renome no capital de uma empresa é um bom indicativo da seriedade da gestão. Estudos já demonstraram que empresas no Brasil com fundos como sócios alcançaram em seus IPOs (abertura de capital, na sigla em inglês) múltiplos de valor superior à média de mercado.

Para os investidores de bolsa, também vale a pena acompanhar as aquisições que empresas de capital aberto realizam com frequência. Transações de compra de empresas que possuem fundos de renome como acionistas tendem a mitigar os riscos de surpresas futuras, como contingências fiscais e trabalhistas. Finalmente, para aqueles investidores mais sofisticados e com volumes de investimentos maiores, a classe de investimentos "private equity" costuma ser bastante atrativa. O retorno médio deste tipo de investimento geralmente supera os comparáveis, como bolsa e renda fixa (não é raro encontrar performances acima de 20% ao ano). Trata-se, entretanto, de um investimento mais de longo prazo, entre cinco a sete anos.

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