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A vida após o luto

Fonte: Isto é Dinheiro - 23/09/2009

Depois da inesperada perda da rede Ponto Frio para o grupo Pão de Açúcar, o Magazine Luiza vira a página, recebe propostas de venda e sonda cadeias no sul do País

Estudiosos do comportamento humano tentam compreender o luto há décadas. Em um artigo publicado em 1916, o fundador da psicanálise Sigmund Freud escreveu que a perda de um ente querido "é um processo longo e doloroso, que acaba por resolver-se por si só quando se encontram objetos de substituição para o que foi perdido". Em junho deste ano, a empresária Luiza Helena Trajano, dona do Magazine Luiza, passou por um episódio classificado por ela própria como uma tragédia.

Depois de comentar com fornecedores que estava certa a compra da rede Ponto Frio, ela foi surpreendida por uma proposta do Pão de Açúcar, que acabou fechando o negócio. Não é nenhum exagero dizer que Luiza considerou o episódio semelhante à perda de um familiar. A aquisição, afinal, consolidaria sua rede como a segunda maior varejista brasileira. "Vivi sete dias de luto, mas me sinto honrada por ter lutado até o final", afirmou ela, em recente evento em São Paulo. Agora, a empresária parece ter encontrado algo que a fez superar o drama de ter deixado escapar o Ponto Frio - o que, aliás, confirma a teoria de Freud. Luiza decidiu ir às compras. Segundo apurou a reportagem da DINHEIRO, aquisições devem ser finalizadas no futuro próximo.

Algumas redes já aceitam sentar-se à mesa de negociações com o Magazine Luiza. Outras tratam do assunto com sigilo total e aguardam proposta melhor Na semana passada, foram entrevistados, na condição de sigilo, três consultores que prestam serviços à Magazine Luiza. De acordo com esses profissionais, as atenções da rede estariam voltadas para as Lojas Becker, Lojas Manlec, Berlanda, as redes MM Mercadomóveis e Salfer, todas baseadas no sul do País, mercado que é considerado estratégico. Embora tenham atuação regional, essas varejistas criaram grupos com vendas anuais entre R$ 200 milhões e R$ 300 milhões, valores expressivos em um setor tão pulverizado.

O sul atrai grandes redes (a Casas Bahia, líder do ramo, cresce mais nessa região do que em qualquer outro lugar do Brasil) graças principalmente aos baixos índices de inadimplência e à grande quantidade de redes pequenas e médias espalhadas pelos Estados. Frederico Trajano, filho de Luiza e diretor do grupo, admitiu recentemente que a empresa está de olho em oportunidades. "Estamos atentos a tudo", afirmou. Segundo ele, o Magazine Luiza foi inclusive procurado por grupos interessados em vender suas redes varejistas. Procurada, a empresa enviou o seguinte comunicado à DINHEIRO: "O Magazine Luiza informa que não negociou a aquisição de nenhuma empresa na região Sul do Brasil. Com mais de 120 lojas, estes Estados estão bem servidos e contarão com uma expansão orgânica, sem necessidade de novas aquisições. O foco do crescimento do Magazine Luiza até 2010 está voltado para a Grande São Paulo."

Como é praxe no mercado, quem é sondado sempre diz que não quer sair do negócio. Trata-se de uma forma de valorizar a própria operação e fazer o preço subir. O grupo MM garante que não está à venda e que, na verdade, é um comprador. "Existem duas cadeias de Santa Catarina que aceitam vender o negócio", diz Emilio Glinski, diretor comercial e de compras do grupo MM Mercadomóveis.

Caçada declarada "Estamos atentos a tudo", disse Frederico Trajano, diretor do Magazine Luiza

"Vamos falar com eles." Uma das redes que poderia se desfazer dos ativos é a Obino, do fundador Teo Obino, morto em 2004, que possui receitas anuais na casa dos R$ 200 milhões. Desde o início da crise financeira, a cadeia amarga um período conturbado. No ano passado, a meta de vendas ficou 8% abaixo do projetado, revela uma fonte próxima à empresa. O projeto de abertura de lojas acabou postergado. "Aprendemos que, se nos procurarem, vamos ouvir o que o interessado tem a dizer", diz a superintendente da Obino, Vera Wachter, que nega, entretanto, interesse em abrir mão da companhia. O assunto é tão delicado que outra rede ameaça quem toca no assunto. "Já falamos com nossos advogados e vamos processar quem disser que estamos à venda", diz Gilson Bogo, gerente comercial da Lojas Berlanda, de Santa Catarina.

A cadeia cresceu 20% em 2008 e abriu 26 lojas no ano passado - fatores por si só suficientes para atrair a atenção de grandes grupos. O Magazine Luiza está prestes a receber uma bolada que pode injetar dinheiro novo do grupo. No final de julho, a LuizaCred, braço financeiro controlado pelo Magazine Luiza e pela Fininvest, do Itaú-Unibanco, obteve do Banco Central o direito de fechar parcerias com instituições de outros países. Essas empresas poderão adquirir uma participação de até 25% na LuizaCred.

A DINHEIRO apurou que o fundo de investimentos Capital Group estaria negociando a compra dessa parcela do controle. Procurada, a Capital não se manifestou. Se conseguir abastecer o caixa, a empresa deverá acelerar o processo de aquisições. E Luiza poderá dizer que o período de luto foi definitivamente superado.

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