english português
2009 2008 2007 Publicações

As Aberturas de Capital Antes e Depois da Turbulência

Fonte: Valor Econômico- 13/10/2008

Luiz Felipe Alves

Diante de um cenário de absoluta falta de credibilidade das instituições financeiras motivada pela histeria e especulação generalizadas dos investidores, fica o grande desafio de tentar explicar o porquê do nosso mercado de IPOs encontrar-se paralisado desde junho de 2008, quando aconteceu a última operação. Ele reagirá? Voltaremos a atingir o nível de 2007? Como as empresas devem proceder neste momento?

Antes de mais nada, para facilitar o entendimento do processo, é necessário debruçar-se sobre alguns números. Em um período de quatro anos, saímos de 7 IPOs, que movimentaram R$ 4,8 bilhões em 2004, para 9 em 2005, que somaram R$ 5,4 bilhões. Um ano depois foram 26 IPOs e R$ 15, 3 bilhões. Já em 2007, 63 IPOs e a movimentação histórica de R$ 57, 3 bilhões. Este ano, até agora, foram apenas 4 IPOs e um total de recursos de R$ 7,6 bilhões.

Como se pode ver, o mercado de capitais vem passando por um processo de consolidação no Brasil e se transformando em uma das principais fontes de recursos para o financiamento da estratégia de crescimento das empresas. Vale ressaltar também que vem proporcionando aos mais de 530 mil investidores que acreditaram e adquiriram papéis das mais de 443 empresas listadas na Bovespa uma ótima oportunidade de diversificação de investimentos.

Infelizmente, este quadro - que poderia ser avaliado como promissor até meados de 2008, desde a crise das hipotecas nos Estados Unidos e com o desdobramento para as principais economias mundiais -, vem passando por um momento bastante conturbado. Estamos literalmente no olho do furacão da crise e com sérios impactos nos mercados de capitais de todo o mundo.

Todo este cenário incerto tem trazido como conseqüência maior sérios problemas de liquidez na economia mundial. É claro que não poderia deixar de impactar o nosso mercado de ações, que ainda é muito dependente dos investidores estrangeiros. Para o devido entendimento do mercado de capitais brasileiro, é importante frisar que mais de 75% dos investimentos na Bovespa nesses anos foram realizados por investidores estrangeiros. Além disso, comparado a outros mercados emergentes, somos o que apresenta a maior liquidez. Portanto, não fica difícil entender essas oscilações bruscas, principalmente nos movimentos de venda dos papéis justamente para cobrir necessidades em outros investimentos realizados ou simplesmente para mover posição para investimentos mais seguros, como os títulos do Tesouro americano.

Entretanto, considerando os dados divulgados no relatório WIR 2008 da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento, podemos, sim, confiar que este momento conturbado será superado. O Brasil é o país da América Latina que mais recebeu investimentos externos diretos em 2007, chegando aos U$ 34,6 bilhões, e ocupa o quinto lugar no mundo, somente atrás da China, Índia, Estados Unidos e Rússia. Em 2008 e 2009, esses investimentos devem ser mantidos no mesmo nível, com impactos diretos na economia e na melhoria de condições de infra-estrutura e de capacidade produtiva do país.

Não podemos esquecer também que recebemos este ano o "investment grade" e que a nossa economia tem resistido bem a toda esta crise. O governo tem tomado as medidas necessárias para garantir a robustez do sistema bancário e a garantia do crédito à exportação. Enfim, não fica difícil acreditar que, passada toda esta tempestade, vamos, certamente, vivenciar um novo ciclo virtuoso.

Acreditando que para toda crise existirão sempre várias oportunidades, este momento pode e deve servir para as empresas que tem em sua estratégia a abertura de capital uma grande oportunidade de melhorar todos os aspectos ligados à governança corporativa, aspectos societários e comunicação corporativa e, com certeza, se habilitar mais adequadamente para o grande desafio de se tornar uma empresa aberta.

Vale lembrar que o mercado de capitais deve sempre ser visto como um investimento de longo prazo e que o valor investido não deve ser cogitado para as necessidades do dia-a-dia. Portanto, para este momento, a recomendação é respirar fundo e não tomar nenhuma ação precipitada, acreditando que, com certeza, vamos viver tempos melhores.

view pdf
<<< voltar