Source: Valor Econômico - 04/10/2007
Certamente, IPO (do inglês Initial Public Offering) é uma das siglas mais lidas este ano por quem passa os olhos por qualquer suplemento de economia dos principais veículos de comunicação do país. É raro encontrar um jornal, site ou revista especializada que, nos últimos meses, não tenha dado destaque em sua pauta a notícias atreladas a processos de abertura de capital. Algo que antes era restrito ao círculo das grandes corporações, passa, gradativamente, a ser observado por empresas de médio porte que avaliam meios de se adequar a esta nova realidade.
Entre janeiro e julho de 2007, nada menos do que 46 empresas acessaram o mercado de capitais, movimentando valores na ordem de R$ 22,804 bilhões (ofertas primárias e secundárias), ante 26 empresas e R$ 9,280 bilhões em 2006, e 7 empresas e R$ 3,102 bilhões no ano de 2005. Tendo obtido um crescimento proporcional de 328% no primeiro semestre, a participação das operações brasileiras de abertura de capital atingiu uma média quase dez vezes superior à média internacional.
Esta tendência deve se manter, sobretudo agora entre as empresas médias, com faturamento de R$ 150 milhões a R$ 1 bilhão. No entanto, com a recente crise do mercado de capitais e conseqüente aversão dos investidores ao risco, prevê-se que as exigências do mercado para os IPOs no Brasil (e no mundo) passarão a ser cada vez mais elevadas.
É preciso, portanto, conter a pressa criada no ambiente corporativo, sob o argumento de que é preciso aproveitar o atual momento de alta liquidez internacional, antes que o cenário mude. Ocorre que o investidor, especialmente o estrangeiro, percebe quando a companhia está despreparada para enfrentar as exigências do mercado e desconta isso no preço das ações. Diante deste cenário, uma boa preparação torna-se ainda mais crucial.
Não é pequena a transformação de uma companhia que quer se preparar adequadamente para um IPO. Na maioria das vezes, é necessário mudar toda uma cultura, além do processo de gestão e controles internos, de forma a permitir "uma melhor governança". Isso inclui, prioritariamente, a criação de um conselho da administração com a participação dos minoritários.
Contudo, antes de qualquer movimento mais ousado, o empresário ou principal executivo deve fazer uma reflexão criteriosa para tentar identificar se a companhia possui as características necessárias ou mesmo vocação para ser uma empresa de capital aberto. É importante levar em consideração que, em empresas de médio porte, podem existir algumas práticas não convencionais de tributação e/ou de centralização na gestão que precisarão passar por mudanças profundas, visando adequar-se a um processo mínimo de governança corporativa.
Deve-se, portanto, buscar um claro entendimento da definição e aplicação de práticas de governança, evitando, com isso, surpresas que este novo mundo da empresa aberta pode gerar, onde a transparência, equidade, prestação de contas e responsabilidade corporativa (social e ambiental) são pilares básicos.
Ao se falar em governança corporativa, devem ser considerados, além da instituição de um Conselho de Administração, conceitos de gestão, controles internos, auditoria independente, código de conduta, conflito de interesses, entre vários outros aspectos.
Vencidas todas essas etapas preliminares, o empresário ou principal executivo deve buscar identificar quais seriam as principais razões para abrir o capital, qual o alinhamento existente entre os sócios sobre essa iniciativa, qual o nível de autonomia existente, condições para implementar as mudanças, quem poderiam ser os parceiros estratégicos para esta empreitada e, finalmente, quanto tempo será necessário para dar cabo deste projeto.
Considerando o cenário atual, onde a euforia inicial do mercado vai baixando e cada vez mais existe a necessidade por parte dos investidores e analistas de avaliar investimentos que possam realmente trazer conceitos de rentabilidade e perenidade robustos, uma preparação adequada nos processos de governança corporativa será, sem dúvida, fator crítico de sucesso para o processo de lançamento de ações. O envolvimento do empresário ou principal executivo em todo o processo, sem queimar etapas, poderá fazer a grande diferença na precificação da ação ou na punição por parte do mercado dos potenciais riscos envolvidos na emissão.