Fonte: Jornal do Comércio - 29/03/2007
Dos R$ 16,6 bilhões captados em ofertas primárias no mercado acionário no ano passado, 16,2% foram destinados para aquisição de participação acionária, segundo estudo da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid). A tendência é de intensificação desse movimento, segundo um sócio da Cypress Associates Luiz Felipe Alves. Na sua avaliação, as empresas devem recorrer mais ao mercado acionário para se consolidar em seus setores de atuação. "Acreditamos que grande parte do processo de fusões e aquisições deverá ser ancorado nas ações de abertura de capital em curso", diz. O especialista em também cita que tal processo deve ocorrer em setores como o de alimentação, construção civil, telecomunicações e financeiro.
JORNAL DO COMMERCIO Quais são os possíveis impactos da venda do Mc Donald"s no Brasil?
LUIZ FELIPE ALVES O efeito da venda do Mc Donald"s acarretará, sem dúvida, em um acirramento da concorrência no mercado brasileiro de fast food. As demais empresas deste setor, com o objetivo de aumentar a competitividade, terão como opção adquirirem ou associarem-se a outras empresas em busca de ganho de escala. De fato, a associação do Bob"s com o KFC anunciado recentemente está amparado por este raciocínio.
Quais outros setores partem para um processo de consolidação no Brasil? O segmento de construção civil/imobiliário, por exemplo, seria um deles, uma vez que mais de 15 dessas empresas abriram capital nos últimos meses?
Hoje existe claramente um movimento de forte consolidação do setor imobiliário. A grande dúvida a ser explorada é se existirá demanda para todos esses empreendimentos. Acreditamos também que há uma clara oportunidade para as empresas que atuam no setor de infra-estrutura, que estão totalmente alinhadas com as políticas do governo federal em curso, como o Plano de Aceleração do Crescimento e as Parcerias Público-Privadas.
O mercado de telecomunicações também desponta como outro candidato à consolidação, já que estão à venda ativos como Telemig Celular, Amazônia Celular e TIM?
O mercado de telecomunicações continua sendo um forte candidato a movimentos de fusões e aquisições. Tal movimento pode ocorrer por fusões entre empresas de maior porte ou por aquisições de empresas de menor porte pelas empresas de maior porte. O primeiro cenário apresenta maiores dificuldades não somente pelo porte das empresas envolvidas como também pelo aspecto regulatório e jurídico. No segundo cenário, observa-se, na prática, uma tendência de consumação da negociação para posterior aprovação por parte das autoridades.
O setor financeiro é muito fechado no Brasil. Mas recentemente ocorreram grandes movimentações, como a compra do Pactual pelo UBS e do BankBoston pelo Itaú. Ainda há espaço para novas operações no setor?
Existe, via mercado de capitais, uma sinalização clara de que os bancos de médio porte estarão se fortalecendo no médio prazo, oferecendo ao investidor a possibilidade de compartilhar o risco deste crescimento e, conseqüentemente, de também poder auferir maiores ganhos, pois se trata de um mercado sem muita referência no Brasil. Após esta etapa, com certeza haverá uma consolidação entre os principais players.
A tendência de empresas brasileiras comprando estrangeiras deve prevalecer em 2007? Em quais setores e o que o justificaria esse processo de internacionalização das companhias nacionais?
Acreditamos na continuidade de tal tendência pois o Brasil tem hoje grandes empresas com atuação global com capital disponível para aquisições de empresas, inclusive estrangeiras. É esperado que empresas com forte atuação no mercado de exportação sejam candidatas naturais para ocupar a posição de empresas compradoras. Neste mundo globalizado é fato que a competência sobrepõe fronteiras geográficas.
O sr. acha que as fusões que venham a ocorrer neste ano vão se dar pelo mercado acionário?
Acreditamos que grande parte do processo de fusões e aquisições deverá ser ancorado nas ações de abertura de capital em curso. Esta disponibilização de novos recursos contribuirá significativamente para financiar o crescimento dessas empresas e impulsionar com grande velocidade a consolidação de alguns setores.